AS 7 NÃO CONFORMIDADES MAIS COMUNS EM AUDITORIAS INTERNAS DE PBQP-H EM CANTEIROS DE OBRAS


A auditoria externa chegou. E agora?
Para muitas construtoras certificadas no PBQP-H, a semana da auditoria externa ainda é sinônimo de correria: pastas sendo organizadas às pressas, registros preenchidos de última hora e a torcida para que o auditor não encontre nada grave no canteiro.
O problema é que, quando a não conformidade aparece, ela quase nunca é uma surpresa de verdade. Na maioria dos casos, a falha já estava ali havia meses, visível para quem soubesse olhar. Faltou alguém da própria empresa olhar antes.
É exatamente esse o papel da auditoria interna. Neste artigo, reunimos as não conformidades que mais aparecem nas auditorias do SiAC (Sistema de Avaliação da Conformidade do PBQP-H) e mostramos como uma auditoria interna bem feita encontra cada uma delas a tempo de corrigir.
As 7 não conformidades mais comuns
A lista a seguir reflete a experiência prática de consultoria e auditoria em construtoras. Não é um levantamento estatístico oficial, mas são situações que se repetem em obras de diferentes portes e regiões.
1. Recebimento de materiais sem inspeção registrada
O cimento chegou, o aço foi descarregado, os blocos foram empilhados. Mas a ficha de verificação do material não foi preenchida, ou foi preenchida depois, sem conferência real do lote, da nota fiscal e das especificações.
O SiAC exige que os materiais controlados sejam inspecionados no recebimento e que essa inspeção tenha evidência. Sem registro, para o auditor, a inspeção simplesmente não aconteceu.
Requisito do SiAC: item 8.4, Controle de processos, produtos e serviços providos externamente (em especial o 8.4.2, Tipo e extensão do controle). A construtora deve estabelecer e implementar a inspeção, ou outras atividades necessárias, para garantir que os materiais controlados adquiridos atendam aos requisitos especificados na compra, e deve manter registros dessas inspeções como informação documentada (item 7.5). Os critérios de aceitação de cada material precisam estar definidos, e o material só pode ser liberado para uso depois de aprovado.”
Como a auditoria interna evita: o auditor interno compara as notas fiscais de um período com as fichas de inspeção e confere, no almoxarifado, se o material estocado corresponde ao que foi aprovado. Em poucas horas, ele descobre se o controle é real ou apenas formal.
2. Serviços controlados executados sem inspeção
Alvenaria levantada, revestimento aplicado, impermeabilização concluída, e nenhuma ficha de verificação de serviço. Ou pior: fichas preenchidas em bloco, todas com a mesma caneta e a mesma data, para serviços executados em semanas diferentes.
Requisito do SiAC: itens 8.5.1, Controle de produção e de provisão de serviço, e 8.6, Liberação de produtos e serviços. A construtora deve executar os serviços controlados em condições controladas, com procedimentos de execução e de inspeção documentados e com os critérios de aceitação definidos. Cada serviço deve ser inspecionado nas etapas planejadas e só pode ser liberado depois de aprovado. A evidência da inspeção, com a identificação de quem liberou, deve ser mantida como informação documentada (item 7.5). Os serviços que precisam ser controlados constam na lista dos Requisitos Complementares do subsetor da construtora.”
Como a auditoria interna evita: o auditor interno vai ao canteiro, escolhe um serviço concluído e pede a ficha correspondente. Depois faz o caminho inverso, partindo da ficha para o serviço. Essa rastreabilidade em duas vias revela rapidamente se a inspeção acompanha a execução.
3. Equipamentos de medição com calibração vencida ou sem identificação
Trena, nível, esquadro, prumo, balança da betoneira. Quando esses instrumentos são usados para aceitar ou rejeitar um serviço, precisam estar calibrados ou verificados, identificados e em boas condições. É comum encontrar equipamentos sem etiqueta, com certificado vencido ou que nem constam na lista de controle.
Requisito do SiAC: item 7.1.5, Recursos de monitoramento e medição (em especial o 7.1.5.2, Rastreabilidade de medição). A construtora deve garantir que os equipamentos usados para verificar a conformidade dos materiais e serviços sejam adequados e mantidos em condições de uso. Quando a rastreabilidade da medição é necessária, esses equipamentos devem ser calibrados ou verificados em intervalos definidos, com base em padrões rastreáveis. Também devem ser identificados, para que se saiba a situação de cada um, e protegidos contra ajustes, danos ou deterioração que comprometam os resultados. Os registros de calibração ou verificação devem ser mantidos como informação documentada. Se um equipamento for encontrado fora das especificações, a construtora deve avaliar se as medições feitas antes com ele continuam válidas.”
Como a auditoria interna evita: o auditor interno confronta a lista de equipamentos com o que está realmente em uso na obra, verifica etiquetas e certificados e checa se os critérios de aceitação da calibração foram analisados, e não apenas arquivados.
4. Treinamentos e competências sem evidência
O encarregado sabe fazer o serviço, o estagiário conhece o procedimento, a equipe terceirizada foi orientada. Mas não existe lista de presença, registro de integração ou avaliação de eficácia. Em canteiros com alta rotatividade e muitos terceirizados, essa é uma das falhas mais frequentes.
Requisito do SiAC: itens 7.2, Competência, e 7.3, Conscientização. A construtora deve definir a competência necessária para as pessoas cujo trabalho afeta a qualidade, incluindo o pessoal próprio e o de empreiteiros que executam serviços controlados. Deve também garantir que essas pessoas sejam competentes, com base em educação, treinamento ou experiência, e, quando necessário, tomar ações para que adquiram a competência, avaliando se essas ações foram eficazes. A evidência de competência, como registros de treinamento e de integração, deve ser mantida como informação documentada. As pessoas também precisam conhecer a política da qualidade, os objetivos pertinentes e as consequências de não seguir os requisitos do sistema.”
Como a auditoria interna evita: o auditor interno escolhe alguns trabalhadores em campo, inclusive de empresas terceirizadas, e verifica se existe evidência de treinamento no procedimento do serviço que eles estão executando naquele momento.
5. Documentos desatualizados em uso na obra
O procedimento foi revisado no escritório, mas a cópia que está no canteiro é a versão antiga. Ou o projeto na mesa do mestre de obras não é a última revisão. Além de não conformidade, isso é risco concreto de retrabalho.
Requisito do SiAC: item 7.5, Informação documentada (em especial o 7.5.3, Controle de informação documentada). A construtora deve controlar os documentos do sistema de gestão da qualidade, incluindo procedimentos e projetos, para que estejam disponíveis e adequados para uso onde e quando forem necessários, inclusive no canteiro de obras. O controle abrange a distribuição, o acesso, a identificação da revisão e o controle de alterações, além de impedir o uso de versões obsoletas. Documentos de origem externa necessários ao sistema, como normas técnicas e projetos de terceiros, também devem ser identificados e controlados.”
Como a auditoria interna evita: o auditor interno compara a lista mestra de documentos e projetos com as cópias encontradas na obra e verifica como as revisões são distribuídas e como as versões obsoletas são recolhidas.
6. Ação corretiva sem análise de causa
A não conformidade foi registrada e "corrigida", mas ninguém investigou por que ela aconteceu. O resultado é previsível: a mesma falha volta a aparecer na próxima auditoria, agora como reincidência, o que pesa muito mais.
Requisito do SiAC: item 10.2, Não conformidade e ação corretiva. Quando ocorre uma não conformidade, a construtora deve reagir a ela, controlando e corrigindo o problema e lidando com as consequências. Também deve avaliar a necessidade de ações para iminar as causas, para que o problema não se repita nem ocorra em outro lugar. Isso inclui analisar criticamente a não conformidade, determinar as causas e verificar se existem não conformidades semelhantes. As ações devem ser implementadas e a eficácia delas analisada. Devem ser mantidos como informação documentada a natureza da não conformidade, as ações tomadas e os resultados das ações corretivas.”
Como a auditoria interna evita: o auditor interno não verifica apenas se a ação foi concluída. Ele avalia se a causa foi analisada, se a ação atacou essa causa e se existe evidência de eficácia. É aqui que um auditor bem formado faz mais diferença.
7. Análise crítica pela direção incompleta ou só no papel
A ata existe, mas não traz os dados de entrada exigidos, não registra decisões ou foi feita apenas para cumprir tabela. Indicadores, resultados de auditorias, reclamações de clientes e desempenho de fornecedores ficam de fora.
Requisito do SiAC: item 9.3, Análise crítica pela direção. A Alta Direção deve analisar criticamente o sistema de gestão da qualidade em intervalos planejados, para garantir que ele continue adequado, suficiente, eficaz e alinhado à direção estratégica da construtora. A análise deve considerar entradas como a situação das ações de análises anteriores, mudanças no contexto, a satisfação dos clientes, o alcance dos objetivos da qualidade, o desempenho dos processos, as não conformidades e ações corretivas, os resultados de monitoramento e medição, os resultados das auditorias, o desempenho dos provedores externos, a suficiência dos recursos, a eficácia das ações sobre riscos e oportunidades e as oportunidades de melhoria. As saídas devem trazer decisões sobre melhorias, mudanças no sistema e recursos necessários, e as evidências devem ser mantidas como informação documentada.”
Como a auditoria interna evita: o próprio relatório de auditoria interna é uma das entradas da análise crítica. Quando a auditoria interna é bem feita, ela alimenta a direção com informações reais, e a reunião deixa de ser burocracia para virar ferramenta de decisão.
O que essas falhas têm em comum
Observe que nenhuma das sete não conformidades exige conhecimento técnico aprofundado para ser identificada. Todas podem ser encontradas por alguém que conheça os requisitos do SiAC, saiba planejar uma auditoria e tenha método para coletar evidências.
Em outras palavras: elas aparecem na auditoria externa porque ninguém da empresa fez essa verificação antes, ou porque a auditoria interna foi feita às pressas, com checklist genérico, só para cumprir o requisito.
O papel da auditoria interna: encontrar antes do auditor externo
A auditoria interna é um requisito do SiAC, mas o seu valor vai muito além de cumprir a norma. Quando bem conduzida, ela funciona como um ensaio geral da auditoria externa e, principalmente, como um diagnóstico do quanto o sistema de gestão realmente funciona na obra.
Uma boa auditoria interna:
• Encontra falhas a tempo de corrigir: sem a pressão do auditor externo e com prazo para tratar as causas.
• Reduz reincidências: porque verifica a eficácia das ações corretivas anteriores.
• Envolve a equipe: engenheiros, encarregados e almoxarifes passam a entender o porquê de cada registro.
• Gera informação para a direção: dados reais para a análise crítica e para a tomada de decisão.
• Diminui o custo da não qualidade: retrabalho, desperdício de material e atrasos aparecem antes de virar prejuízo.
Por que formar um auditor interno na própria equipe
Muitas construtoras contratam a auditoria interna de terceiros, o que é perfeitamente válido. Mas ter pelo menos uma pessoa da equipe preparada para auditar traz vantagens claras:
• Conhecimento da realidade da empresa: quem está dentro conhece as obras, as pessoas e os pontos fracos do processo.
• Frequência: é possível fazer verificações menores ao longo do ano, e não só uma vez antes da auditoria externa.
• Custo: a formação é um investimento único, que se paga já nos primeiros ciclos de auditoria.
• Cultura da qualidade: o auditor interno passa a ser uma referência para o restante da equipe.
Vale lembrar que o auditor interno precisa de independência em relação ao que audita. Por isso, o ideal é formar mais de uma pessoa, para que uma possa auditar o setor ou a obra da outra.
As não conformidades mais comuns no PBQP-H não são falhas complexas. São falhas de rotina, que se acumulam quando ninguém olha para o sistema com método e regularidade.
A boa notícia é que todas podem ser evitadas. O caminho passa por uma auditoria interna levada a sério, conduzida por alguém que conhece os requisitos do SiAC e sabe transformar o que encontra em melhoria real.
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• Datas: sábados, 14 e 21 de novembro de 2026
• Para quem: engenheiros, técnicos, gestores da qualidade e profissionais de construtoras
• Instrutora: Andreia Aquino, Engenheira de Produção e Auditora Líder ISO 9001, ISO 14001 e ISO 45001
• Conteúdo: requisitos do SiAC, planejamento e condução de auditorias, coleta de evidências, redação de não conformidades e relatório, com exemplos reais de obra
As vagas são limitadas.
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